Jantar Secreto, de Raphael Montes (2016)

 ou: motivação fraca para atitudes extremas ⭐⭐⭐
Acho que, quando você se propõe a escrever uma história com essa temática, o mínimo que se espera é alguma complexidade dos personagens envolvidos. Mas, nesta, senti personagens tão rasos e caricatos que me desprenderam de boa parte da narrativa.
Na narração de Dante, Miguel é um coitado sem voz, que vive em cima do muro e por isso só atrapalha; Hugo é um metido que entende de cozinha e não se importa com ninguém além de si mesmo; e se estivessem em um episódio de Todo Mundo Odeia o Chris, Dante descreveria Leitão como: “ele era gordo, gordo, gordo, muito gordo mesmo, usava gordo, mancava muito gordo mesmo, e também era gordo… e andava gordo”.
Também parece haver um certo desconhecimento do que um programador ou hacker realmente faz, já que tudo o que envolve computador vira função do Leitão, com destaque para a grande tarefa inicial que ele recebe: preencher um formulário. Não pude deixar de rir quando percebi que o contato para os jantares secretos, ultra-restritos e supostamente irrastreáveis era feito por um Gmail.
Se a intenção do personagem Dante e de seu desenvolvimento era aproximar os leitores da história, fazendo com que suas decisões fossem minimamente parecidas com as que um cidadão comum tomaria, deu tudo absolutamente errado. Além de tudo, é difícil saber como ele não precisou ir ao hospital em nenhum momento, visto que sua alimentação rotineira eram 2 pílulas de Rivotril, cocaína e MDMA adoidado.
Não consigo entender o que os mantinha como amigos; claramente, ali ninguém se importava com ninguém. Por isso, o plot, apesar de previsível, faz todo sentido: não haveria outro motivo para precisarem desses quatro panacas para a rede funcionar.
Para além dos “amigos”, os outros personagens que aparecem na história são tão caricatos quanto, mas gostaria de destacar Soninha Klein, a militante humanitarista descrita como uma grande hipócrita. Consigo facilmente imaginar um tiozão usuário de Twitter lendo essa descrição e gritando em concordância: “EU SABIA, ESSES MILITANTES DE IPHONE”. A personagem é tão caricata que, em seus momentos finais, começa a vomitar uma sopa de trend topics da direita, entre “viados comunistas” e “feminista preto babaca gay nojen…”. Tudo isso de forma completamente sem nexo, apenas para reforçar a caricatura de militantes que buscam e vivem apenas de engajamento, mas que, por trás das cortinas, são seres humanos terríveis.
As questões levantadas sobre ética, moralidade e a comparação do consumo de carne animal com a carne humana também são dolorosamente rasas. Aqui, mulheres são sub-humanas, servidas em um prato que tem muito racismo e violência naturalizada contra pobres. Acho que a tentativa de crítica social, se é que houve mesmo, não funcionou e sobrou apenas a violência pela violência.
Na função de entretenimento, pode ser uma boa leitura. A narrativa é envolvente, principalmente nas páginas finais, e gostei bastante da escrita da celebração do Centésimo Jantar.

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