this is how i disappear

Fiquei fevereiro inteiro doente, o Palmeiras foi campeão do Paulista e é líder no Brasileirão, cortei meu próprio cabelo, levei o chinelo do meu professor para casa sem querer, conheci pessoas novas no trabalho, entreguei meu MVP e fiz minha prova final da pós, consertei a pia do banheiro sozinha, K.K. Slider finalmente foi na minha ilha, cortei o cabelo do meu namorado, comprei um sutiã que realmente sustenta, meus sonhos voltaram a serem estranhos, desativei meu instagram, ganhei o primeiro pedaço de bolo do meu melhor amigo e montei a estante dos sonhos com IA.

Dito isso...

Sinto que as coisas estão ficando cada vez mais complexas, mesmo buscando levar a vida da maneira mais simples possível. Acho que "desaparecer" é uma tentativa de simplificar todos esses processos, e eu gosto da ideia de estar fora do radar, parece que quando você não tem uma presença online, você deixa de existir no imaginário dos outros.

Para além disso, voltei a ter presença offline, estou vendo amigos, colegas e família, e tem sido bom. Depois de muito bater cabeça, agora estou muito esclarecida sobre papéis que as pessoas desempenham na minha vida, e essa clareza mental tem me poupado muito transtorno e frustração. Cometi o erro de acreditar em palavras e esperar amizade quando só podiam oferecer coleguismo, e parar de escutar o que dizem para apenas observar ao redor, me tirou um peso enorme de expectativas que nunca seriam cumpridas, as pessoas são o que elas são.

Jantar Secreto, de Raphael Montes (2016)

 ou: motivação fraca para atitudes extremas ⭐⭐⭐
Acho que, quando você se propõe a escrever uma história com essa temática, o mínimo que se espera é alguma complexidade dos personagens envolvidos. Mas, nesta, senti personagens tão rasos e caricatos que me desprenderam de boa parte da narrativa.
Na narração de Dante, Miguel é um coitado sem voz, que vive em cima do muro e por isso só atrapalha; Hugo é um metido que entende de cozinha e não se importa com ninguém além de si mesmo; e se estivessem em um episódio de Todo Mundo Odeia o Chris, Dante descreveria Leitão como: “ele era gordo, gordo, gordo, muito gordo mesmo, usava gordo, mancava muito gordo mesmo, e também era gordo… e andava gordo”.
Também parece haver um certo desconhecimento do que um programador ou hacker realmente faz, já que tudo o que envolve computador vira função do Leitão, com destaque para a grande tarefa inicial que ele recebe: preencher um formulário. Não pude deixar de rir quando percebi que o contato para os jantares secretos, ultra-restritos e supostamente irrastreáveis era feito por um Gmail.
Se a intenção do personagem Dante e de seu desenvolvimento era aproximar os leitores da história, fazendo com que suas decisões fossem minimamente parecidas com as que um cidadão comum tomaria, deu tudo absolutamente errado. Além de tudo, é difícil saber como ele não precisou ir ao hospital em nenhum momento, visto que sua alimentação rotineira eram 2 pílulas de Rivotril, cocaína e MDMA adoidado.
Não consigo entender o que os mantinha como amigos; claramente, ali ninguém se importava com ninguém. Por isso, o plot, apesar de previsível, faz todo sentido: não haveria outro motivo para precisarem desses quatro panacas para a rede funcionar.
Para além dos “amigos”, os outros personagens que aparecem na história são tão caricatos quanto, mas gostaria de destacar Soninha Klein, a militante humanitarista descrita como uma grande hipócrita. Consigo facilmente imaginar um tiozão usuário de Twitter lendo essa descrição e gritando em concordância: “EU SABIA, ESSES MILITANTES DE IPHONE”. A personagem é tão caricata que, em seus momentos finais, começa a vomitar uma sopa de trend topics da direita, entre “viados comunistas” e “feminista preto babaca gay nojen…”. Tudo isso de forma completamente sem nexo, apenas para reforçar a caricatura de militantes que buscam e vivem apenas de engajamento, mas que, por trás das cortinas, são seres humanos terríveis.
As questões levantadas sobre ética, moralidade e a comparação do consumo de carne animal com a carne humana também são dolorosamente rasas. Aqui, mulheres são sub-humanas, servidas em um prato que tem muito racismo e violência naturalizada contra pobres. Acho que a tentativa de crítica social, se é que houve mesmo, não funcionou e sobrou apenas a violência pela violência.
Na função de entretenimento, pode ser uma boa leitura. A narrativa é envolvente, principalmente nas páginas finais, e gostei bastante da escrita da celebração do Centésimo Jantar.

amanheceu

"Depois da última noite de festa 
Chorando e esperando amanhecer, amanhecer"

Hoje estávamos no carro que você dirigia, e eu estava no banco de trás te observando. 
Havia algo de estranho ali, eu podia sentir, mas não sabia o que era.
Mas chegando na casa, logo entendi tudo.

Nunca existiu carro, uma das poucas coisas que sei de você é que você não dirige. E também, é claro, que você não está mais vivo. Assim, você desapareceu.

Entrei na casa e soube que estava sonhando, assim, decidi me comunicar, uma possibilidade que só é viável em um sonho. Comecei a escrever em uma folha, com a certeza de que você me responderia, afinal, eu queria que você me respondesse.

- Oi
- Oi (escrito de forma torta, por dentro do espaço onde eu mesma tinha escrito)
- Onde você está? Está tudo bem?
- Eu não sei, não encontro a saída...

A resposta não me trouxe nenhum conforto. Era uma resposta óbvia, afinal, eu não sei como estou e não encontro a saída.

Então acordei, e já tinha amanhecido.

O ano está acabando, você não está mais aqui, e eu tenho mais dúvidas que nunca. 
Ainda assim, a única certeza é que independente de nós, amanhã vai amanhecer de novo.